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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PARTILHA VOCACIONAL


“Viver ultrapassa qualquer entendimento.”
Clarice Lispector


Sinto-me aspirante de coisas mais nobres. Mas aspiro a uma nobreza fora dos conceitos sabidos de hoje; uma nobreza que é invisível aos olhos. Por isso, estou sendo capaz de deixar uma “vidinha” que aparentemente seria mais segura, confortável, palpável e certa. Virei-me contra a correnteza deste mundo, e agora realizo o movimento inverso. Como tantos, fui desafiado; mas como poucos, aceitei. Nunca me contentei com o pouco. Corro riscos, sinto medo. Mas sonhos sem riscos trazem conquistas sem méritos. Viver é arriscar-se.


Destarte, é em grande parte devido ao sobredito que aceitei um chamado e estou inteiro para uma experiência passo-a-passo na vida religiosa. Uma vida construída; uma família constituída. Quero viver minhas etapas... todas elas. Posto que, não existe o caminho, o caminho se faz ao caminhar. E não estou sozinho; aliás, não irei a lugar algum sem os laços de fraternidade ainda iminentes – meus irmãos. De fato, já dizia Sartre que “o homem tem consciência da sua existência através do olhar do outro, e vice-versa”. Tudo isso hoje se torna o meu sonho, parte de meus ideais. E desejo ir a fundo, prefiro o que é profundo. Não gosto de água com açúcar. E não estou partindo simplesmente porque quero; antes disso, me vejo sendo levado por uma Força maior do que eu, e que, portanto, transcende-me de um modo absurdo. ‘Ele me venceu’.


No fundo, somos todos como Abraão, rumo ao monte Moriá; sozinhos em nossas escolhas e renúncias, sendo que a escolha de algo é necessariamente renúncia de outro. A vida é isso: um constante “trade-off” entre escolhas e as perdas e ganhos que as acompanham. E ainda, cada atitude é uma tomada individualmente; somos existentes singulares e ninguém pode tomar nossos passos, que inclusive estão sempre para serem dados.
Eis o paradoxo da existência: a liberdade que é inata nos condiciona sempre à tomada de decisões; e muitas vezes não suportamos o suficiente para sermos autores das mesmas, permitindo assim que a própria vida e os outros escolham por nós; e de fato, se não cuidarmos a vida leva. Digo com Kiekegaard que a angústia que me ronda hoje neste peito inquieto é apenas vertigem da felicidade construída que me aguarda nestes primeiros passos que dou em busca de uma vida íntegra e iluminada.


O importante de tudo é reconhecer que o peso de se viver (intensamente) é inevitável. Contudo, devemos erguer a cabeça ao alto, e acreditar que através das experiências profundas e absurdamente humanas com o Deus presente no outro – pela gratuidade do "ser-com" – conseguiremos (re)construir-nos continuamente em direção ao "feliz” e então dizer, gritar que: A VIDA É BEM MAIS QUE ISSO, E VALE A PENA SER VIVIDA!
“A vocação é um arriscar-se nas mãos de Deus”. E eu o faço.
Eis que aqui estou!
Fiat voluntas tua!

Gabriel Nascimento
Belo Horizonte/MG

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

PARTILHA DE EXPERIÊNCIA


  Eliana Silva

Eliana Silva é o nome de uma ocupação situada na Avenida Perimetral, na região do Barreiro, em Belo Horizonte. Este nome se dá em homenagem a uma mulher de fibra que lutou pela instauração da Vila Corumbiara, que fora também um dia uma ocupação.

Despejadas no dia 25 de agosto passado, por meio de uma liminar de reintegração de posse, as famílias que ali residiam vivenciaram um momento de pleno terror. Como se não bastasse a presença de centenas de policiais fortemente armados, foi inaugurado, nesta ação, o novo veículo da Polícia Militar de Belo Horizonte, apelidado por “Caverão”. A presença de alguns religiosos(as), dentre eles os freis agostinianos, assim como de deputados, representantes do conselho de Direitos Humanos e advogados, foi de suma importância para que não houvesse maiores abusos da integridade moral e física das famílias resistentes.

Hoje a ocupação resiste numa área próxima ao local do último despejo, com mais de 350 famílias cadastradas pelo Movimento de Lutas nos Bairros Vilas e Favelas (MLB). Sabemos que a mesma carece de recursos materiais, no que toca a sua logística. Todavia a organização e a predisposição são exemplares, pelo espírito de partilha testemunhada por tantos cidadãos que lutam pelo seu direito à moradia.

No seguimento a Jesus, na opção preferencial pelos pobres, se faz presença profética os freis agostinianos, onde, de forma solidária e gratuita, a vida é partilhada tanto em momentos de culto quanto na vivência do dia a dia. A solidariedade dos freis e seminaristas, nesta realidade, testemunha, a espiritualidade encarnada proposta por Jesus em seu seguimento, e se faz fiel ao espírito primeiro da proposta da Vida Religiosa, sendo sinal de contradição e voz profética diante da injustiça social, a fim de promover a vida, e vida em abundância.

Paulo Henrique Cintra
Belo Horizonte/MG